•.¸¸.ஐ Dentro*

Sentou no chão do quarto e bateu a porta, como se aquele escândalo pudesse aliviar a dor que sentia. Fisicamente não estava machucada, era a alma que doía. Lancinante. Recolheu-se abraçada às pernas, cabeça baixa, olhos secos. O eco do ‘eu te amo’ recém-pronunciado só feria ainda mais. Ela não queria aquela frase e não podia dizer que também amava. Amava? Não sei, não sabia.

Foi só quando se sentiu morada do silêncio e nada mais ouvia, nem o passado, é que duas gotas lacrimejaram compridas pelo rosto, pelo chão. Escolhera magoar a si mesma por medo de ferir quem a amava quase incondicionalmente, mesmo que ela não se sentisse digna daquele amor. As gotas transformaram-se soluços e ela se sacudia como se pudesse se inventar de novo. Poderia? Não sei, não sabia.

No auge do choro, vieram as notas da música que ouvira no dia anterior. “Me escondi Pra não ter que ver você dizer Coisas que eu não merecia ouvir Era você ou eu”. Era a música dela, feita pra ela. Deixou as pernas se esticarem e largou os braços ao redor do corpo. Sentia-se incapaz, perdida.

Escolhi O pior lugar pra me esconder Me tranquei por dentro de você E não sei mais sair”. No íntimo, vinha nascendo, há tempos, uma certeza que se cristalizava. As lágrimas rareavam e ela fez força para levantar. De pé, para aonde seguir? Não sei, não sabia.

Pela rua penso em ti Volto em casa, penso em ti No trabalho sem querer Quando vejo tô pensando em você E surgi de onde eu não imaginei E aprendi que eu nunca sei Enganar meu coração”. A verdade com a qual ela não sabia lidar era que amava uma pessoa. Não, não era paixão. Não, não era um gostar intenso. E foi preciso se afastar pra ver o que outros já viam, já sabiam, menos ela (?).

Sim, ela amava uma pessoa. Fato aceito, não sabia o que fazer com tão grande sentimento. Não tinha um jarro, um pote, uma nécessaire onde pudesse guardar aquele amor. Mas amor não se guarda, ela sabia. Mas estava casada com alguém que a amava quase incondicionalmente, a quem ela jurara amar eternamente, a quem não podia, ou, não queria, de forma alguma machucar.

Escrevi frases soltas pelo chão Esperei você dormir Pra jurar minha paixão”. Trancou a porta antes de ouvir a primeira batida e a voz que lhe embalava os sonhos e não todos os desejos. Não respondeu. Ainda não tinha resposta. Abriu a gaveta de suas coisas e tirou de lá um bloco de folhas e caneta.

Clareou algumas palavras em pensamento antes de ferir a brancura do papel. Com quem lhe batia à porta e lhe chamava pelo nome e por todos os apelidos que lhe tinha carinhosamente posto, nunca se sentia sozinha. Com o motivo das lágrimas em seu rosto, não sabia esperar e procurava um futuro, sabíamos, que não podia lhe dar. Ainda assim, todo amor que dentro dela pode haver, insistia em bipartir em medidas desiguais.

Tentou escrever o futuro que queria (ou assim pensava que). Ela e a outra, num ambiente de palavras simples e amor calmo, com a verdade às claras. O quadro era lindo, mas irreal. Rasgou a folha até que não sobrasse uma frase inteira e cedeu às batidas na porta do quarto. Fitou demoradamente aqueles olhos castanhos fartos de brilho e de amor e se lançou ao encontro da mulher que a esperava.
- Eu também te amo!


*A música a que se refere este texto é Dentro, de Ana Carolina.

13 comentários:



ઇ‍ઉ Amor a letra ઇ‍ઉ disse...

Amiga... é lindo... é triste...é sem palavras...
Amores... nos matam... nos deixam sem chão... a Ana... nos tira do chão...
Estou Dentro... do seu texto...
e vc esta Dentro... do meu coração!

Ava disse...

Doce menina, voce demora, mas quando vem com um novo texto, vem feito tromda d'agua, encharcando tudo...
Quanto sentimento... Como caber tudo isso dentro desse coraçãozinho....
É lindo...está lindo...

Pura emoção, que escorre por entre letras e palavras...

Beijos, com carinho....

º Tayla º disse...

Bruu!
Linda a música.. Ana é Ana, né?
Eu insisto em dizer que você escreve beeem demaais mesmooo!!")
Beijo e boa semana.

Lelli Ramz disse...

Linda,

além do sofrer, este que eu não quero nunca q tu passes...


eu ainda te desejo intensidade, drama... vida!

e isso eu sei q tens...


bjinhus, amores e soluços

Lelli

•.¸¸.ஐBruneLLa França disse...

Sei que tenho andado distante daqui e de espaços que eu amo ler! Mas eu precisava sair uns dias, me deixar por uns dias e me perder do mundo, pra me recuperar!
Fim de um ciclo, início de outro. Estou pronta a voar novamente^^
Obrigada pelo carinho de tod@s, sempre!!!

Beijos e borboleteios!

Max Psycho disse...

aiai eu não consigo me sensibilizar com esta coisa estranha chamada AMOR, mas adoro seus textos, bjus gata e se tiver twitter passa la no meu, se não tiver passa pra ver só

www.twitter.com/max_psycho

Vivian disse...

...adoro tudo que vc escreve,
e amo quando a vejo passeando
lá em casa.

és lindaaa!

muahhhhhh

paula barros disse...

Não sei quais são seus planos com o escrever, mas deu vontade de lhe dizer, invista, invista...seus textos são excelentes. Não sei explicar tudo em termos literários, de narrativa, personagem, mistério que prende o leitor, estética....e tudo o mais de um bom texto, desenvolvido por um bom escritor.

Mas fico fascinada. Emocionada. Tem frases espetaculares.

Adorei.

Estava com saudades de seus voos. Agora sou eu que ando me arrastando. rsrsr

abraços

Dri Viaro disse...

lindo amiga
bjsss

Max Psycho disse...

vc ainda não disse se tem twitter minha linda

Úrsula Avner disse...

Oi minha linda, muito sensível seu texto. Bj com meu carinho.

HSLO disse...

Muito lindo o seu blog...viu, gostei demais. Já sou um seguidor.
Vou te linkar aos meus favoritos.

Abraços


Hugo

Vieira Calado disse...

Amar é bom.

Ser correspondido...

talvez

melhor!


Bjs