A poetisa olhava-a fixamente da fresta da cortina. Linda. Observava-a no jardim da casa dela, cuidando de uma roseira. Da janela de seu quarto, acompanhava a movimentação da vizinha. Mãos revolviam a terra, limpavam o suor da testa, deixando caminhos marrons na face.De olhos profundos e inquietantes, espreitava a beleza, com cintilante vontade de provar as melodias dos beijos quentes prometidos por aqueles lábios. A jardineira regava as flores sem saber que molhava também outra flor, oculta, querente. Valentina soube antes escrever o que o céu desenhava, os traços escorrendo pela tinta como fragmentos de um pincel desnivelado, as formas divagando sobre a natureza que os seios-botões lhe insinuavam.
Embebida em leves nuances de paixão e alegria, desejou percorrê-la na intemporalidade dos sonhos. Vontade de um toque, um abraço, um gosto. Um canto quase místico alcançou-lhe os ouvidos. A beleza era mais do que a voz.
Viu-se descendo os degraus até o portão. Viu-se seguindo os passos que tanto imaginou. Viu-se entrando no jardim onde vagueavam seus versos flamejantes. Viu-se diante dos olhos orvalhados de luar que tanto a fascinavam.
Sorriso. Surpresa. E eclodiu a centelha no desejar profundo. Incandescentes pétalas deixaram a corola que as abrigavam e foram beijar-lhes os pés. Ao toque da paixão, os lábios consumiam os sóis de outros céus, vivendo o encontro cujos gemidos caíam no equinócio de uma voluptuosa primavera.







