•.¸¸.ஐ Colheita

Era uma tarde sem nexo de uma terça-feira besta. Ônibus parados, internet lenta e aquele calor modorrento fazendo com que todas as cidades do mundo sejam um pouco irmãs de Macondo. Até mesmo o sorriso fazia força para nascer em rostos enrugados, poros buscando sombras de pele.

Foi então que me veio o livro, o perfume, o olhar. Vestida de boneca, a brisa se aproximando a cada passo, era como se o lume dos olhos dela pudesse refrescar meu sentir. E podia. Grãos de vento, de sombra, de água. Gotas de letras, de amor, dela. Deliciosamente dela.

Versos como gotas de delicadezas pinçadas da grande narrativa da vida ou pérolas prontas a florearem um romance. Quem sabe o nosso? Em cada poema, ela constrói uma imagem com palavras. De onde elas vieram? Por certo que as viu antes de escrevê-las... E as letras dela me levam pela mão, pelos vãos, pelas entrelinhas, reticências, silêncios.

E tudo deságua nela. E tudo venta dela. E tudo emana com uma força-delicadeza que me enternece, feito um toque de dedos de nuvem. E as marcas vão surgindo, sutis, se eternizando, vêm voando e fazendo ninho em meu coração.

Ah, ela que diz ser do barro do medo e do desejo; ela que é revirada pelas mãos do destino e o sopro do vento; ela que borboleteia diante de meus olhos fascinados, servis; ela ainda provoca, atenta e diz ser mais dela quando minha. Minha? E eu me resumo no querer fazê-la chover.

Espero-a em sobressalto, com todas as chamas do desejo acesas, tremente ao vento quente do virar de páginas. Espero que ela se volte para o meu deslumbramento feito de amor e de letras derramadas nestas linhas e me imobilize sobre seu corpo em movimento.

Ao fim da colheita, a sensação de que presenteia-me com um sopro bálsamo para um dia que seria qualquer e um pedaço da alma, desesperadamente infinita como o azul do céu.

•.¸¸.ஐ Sensuelle

As gotas finas que caíam das nuvens já cansadas de tanto chover a acompanhavam pelas ruas. Os cabelos soltos grudavam em seu corpo, tão molhados estavam. O mesmo acontecia com seu vestido. Lilás. Doce. De saia um pouco rodada e renda. Com direito a falsos botões na frente. Digo falsos porque não abriam. E botão que não abre que pode ser senão falso?

Passos médios, sem pressa. Pés descalços, sandálias na mão. Em seu pensamento, tinha a imagem de si diante do espelho. Lembrou-se da sensação desconcertante de que apenas parte dela estava naquele reflexo, como se fosse a pintura de uma meia Lua feita por alguém que nunca vira uma Lua cheia.

Pelo adiantado da hora, havia pouca gente pelas ruas. Ainda assim, assovios, dizeres e sorrisinhos pelo caminho. Não foram, porém, ouvidos ou percebidos. O silêncio dela era intransponível. Estava já a poucos metros do mar e sentia dele o perfume mais intenso. Amante sedutor. Chegou ao calçadão e levantou os olhos. As nuvens se desmanchavam e luzes distantes eram já vistas.

Deu alguns passos, talvez insegura. Era uma noite de segunda-feira. Não havia ninguém por perto de Helena. Olhou para frente e para trás. Medo ela não tinha. Era assim: surgida pela afirmação de sua própria negação. A moça acreditava ser capaz de se defender sozinha em qualquer situação. Não sei se era. Mas não teria que provar nada a ninguém. Não naquela noite. Não nestas linhas.

E sendo, caminhava, no mesmo ritmo, compassado, meio que brincando, meio que rebolando. Nada forçado, era natural. Demorou a reparar na criatura que, inusitadamente, acompanhava-lhe o andar. Ao lado de Helena, uma borboleta amarela esvoaçava, disposta a seguir da moça o caminho.

Aquela presença pequena e alada a fez sorrir entre os passos. Era estranho o que a jovem sentia. Uma sensação de aconchego ao lado da borboleta. Como se tivessem sempre esperado por aquele caminho, aquele encontro.

Mais alguns passos e Helena não sentiu mais aquele amarelo-vivo ao seu lado. Voltou os olhos para trás e notou um borboletear que tentava lhe chamar a atenção. Assim que a moça tinha os olhos fixos naquele voo circular, o ser alado pôs-se a voar em direção ao mar, indicando à outra que a seguisse. E ela foi.

Pisou na areia devagar. Só então notou aquela claridade familiar, que tanto amava. Voltou os olhos ao céu e se deparou com a Lua cheia. A maior que já vira. Podia senti-la tão perto... Mais um pouquinho e tocaria naquela face alva pela qual era apaixonada. Contudo, ao invés de levantar os pés, sentou-se. Ao lado dela, numa pequena elevação na areia, a borboleta descansou as asas.

Permaneceram assim, lado a lado. Até que a sensualidade de um esbarrar suave despertou Helena. Aquele tocar de minúsculos pés avançava deixando um rastro de ternura pela pele macia dela. Logo subiu até o joelho, passou às coxas. Alcançou o abdômen, os seios, colo, pescoço. Roçou-lhe os lábios e, com a licença dos cabelos, descansou pousada nas costas, bem no meio. A moça se sentiu inteira abraçada pela borboleta.

Naquele instante, o desejo de serem um único ser foi tão forte que a Lua intercedeu em favor das duas. Os corações bateram num ritmo só. As respirações se igualaram. A moça diminuiu e a borboleta cresceu. Até que houve harmonia. Helena abriu os olhos. Tinham nova cor e novo brilho. Âmbar.

Em suas costas, onde o pequeno ser pousara, um majestoso par de asas se mostrava imponente. Multicolorido, como o interior da moça – vocês não sabiam, mas ela guardava em si o arco-íris. Levantou-se com uma graciosidade desconhecida e sentiu o vento. Balançou as asas no mesmo ritmo. Não demorou a alcançar o céu.

O pouso de volta à areia foi delicado. Tocou primeiro com a ponta dos pés, feito bailarina alada, e foi baixando, devagar, até estar firme para soltar o peso do corpo. Foi então que, ao olhar para a Lua cheia, viu o reflexo de si mesma. No espelho de Helena, seu reflexo se mostrava nítido, único, como se feito por alguém que nunca conhecera outra Lua senão aquela.

•.¸¸.ஐ Sapatos Vermelhos

Ela não queria sair de casa naquela tarde. A luz a incomodava, resistia ao Sol daquele horário inventado que lhe roubava o sono, a paciência e o sorriso. Na verdade, resistia ao Sol. Filha da noite, em seus olhos lia-se o anseio pela Lua enquanto esgueirava-se por aquele baile de máscaras e vaidades que o dia a obrigava.

Demorou-se no banho mais pelo prazer da espuma em seu corpo e pela água gelada que por outro sentimento. Abriu a janela ao vento, mas fechou a cortina à luz. Escancarou as portas do guarda-roupa sem a menor vontade de abandonar a umidade da toalha. Tão bom estar ali...

Em meados de outubro, sabia, as noites costumavam ser frescas. Tanto quanto sua pele limpa após o banho. Sem paciência para suas calças jeans e camisetas xadrezes, concentrou-se nos vestidos. Sim, ela tinha vestidos nos cabides e adorava usá-los.

Pensou na Lua cheia que a encontraria dali poucas horas e escolheu um modelo que lhe caía bem. Mais, que lhe fazia sentir bem e sorrir. Era mais flor – uma linda dama da noite, por certo – que mulher. Sapato de boneca, olhos bem marcados por lápis preto esfumaçado e boca rosada. Quando saiu do quarto, já era noite. Entregou-se sem reservas.

Chegando ao teatro, viu que ainda era cedo. Gostava sentar na praça, apreciar os galhos das árvores, as folhagens novas, o céu. A visão daquela Lua cheia, a maior que já vira, arrebatou-lhe a alma de tal forma que chorou. Ela sabia que seu ciclo correspondia ao lunar. Mais, tinha ciência de que cada mulher carregava uma lua própria, dentro de si, mas que a maioria sequer se dava conta disso, dos próprios ciclos. Uma pena...

Voltou para frente do teatro. Logo viu conhecidos na fila, cumprimentou a todos enquanto deixava a brisa envolver-lhe as pernas e sorria. Os minutos foram se contando, ininterruptos, como seus passos, errantes. Até que estancou.

Seus olhos foram atraídos por um par de sapatos vermelhos. Não um vermelho qualquer. Carmim. Se o desejo tivesse cor, seria aquela. Foi subindo pelas pernas abrigadas numa calça jeans da qual gostou. Entreviu uma camisa escura com certo brilho e um sobretudo preto.

Por último, descobriu-lhe sorriso. E a inteligência e o bom-humor cotidiano. Como? Trabalhavam juntas. Mesma sala. Conhecia-lhe dois perfumes que amava. E o cabelo todo cachos sempre preso. Mas ali, os caracóis emolduravam-lhe o rosto ornamentado por aqueles óculos de ar engravatado que adorava. Ah, e o perfume... O aroma mais cítrico que conhecera, impregnava-se nela feito uma segunda pele.

Gostava admirar aquelas formas que eram tão semelhantes às suas. Gostava imaginar aquelas formas junto das suas. Tantas tardes embarcava em sonhos com ela... Suspirou de modo que a outra ouviu e a percebeu. Sorriram-se.

Gostava daquele jeito despojado dela, daquela espontaneidade aprendida, treinada, desenvolvida. É que entre outras ocupações, a outra era também atriz. Acabaram por assistir à peça juntas. Ou nem tanto...

Sentaram-se lado a lado, primeira fileira. Acomodadas, os braços roçaram-se. Ela sentiu de imediato a respiração alterar e um arrepio percorrer-lhe o corpo. Esperou reação da outra, mas os braços continuaram unidos enquanto os olhos viam o palco. Ou quase.

Ela via aquele sapato vermelho de salto elegante que tanto lhe chamara atenção. Via as duas longe dali ou mesmo ali, mas sem mais ninguém envolta. Voltou a olhar os atores, mas de quando em vez desviava para seu lado direito, onde sua atenção e desejo estavam concentrados.

Sentiu a outra respirar fundo. Outro arrepio, intenso, percorreu-lhe inteira. Perceptível à sua companhia. E assim queria que fosse. Naquela meia luz, quis aqueles dedos sobre suas pernas, coxas meio deixadas à mostra pelo vestido. Quis aquela boca que lhe segredava comentários mais rente ao seu ouvido, a compartilhar outros quereres.

Dividia-se entre o encanto do que era encenado e o encanto que emanava de tão perto, mais do que todos os dias, mais do que quando se cruzavam ao abrir a porta. Ruborizava e apertava ainda mais os dedos. Queria era os dedos dela entre os seus.

E aqueles sentimentos eram regados dia após dia, renovados a cada cumprimento, sorriso, instante, olhares. Aplaudiram juntas o fim do espetáculo, cada uma reagindo a seu modo a um texto que tanto lhes falava. Ela chorou durante a peça. E fez com que a outra percebesse aquela sensibilidade.

Nas luzes acesas, logo foram buscadas por outros olhos conhecidos. Afastaram-se. Ela não estava ali a passeio. A outra acompanhava um grupo de amigos, os quais tinha deixado para entrar com ela no teatro. Só para que ela não ficasse sozinha.

Saíram. Conversas bestas do lado de fora, burburinho de gente, de encontros, de beijinhos e despedidas. As duas moravam em cidades vizinhas. E iam cada uma para um lado. Ela reuniu toda a sua meiguice e foi conquistar o abraço que há tanto queria.

Aproveitou para enlaçá-la a cintura e dar um beijo no rosto, ali, pertinho da boca que queria tanto conhecer. Sentiu um carinho em seus cabelos e gostou encontrar aquela ternura no olhar dela. A outra chamou-a de volta a seus braços.

- Fica comigo... Depois eu levo você pra casa, pra cama, pro altar, pra onde você quiser, e não necessariamente nessa ordem.

Ela aconchegou a cabeça na curva do pescoço da outra para sorver melhor aquele perfume que lhe perturbava os sentidos e produzia umidade entre as pernas. Sorria. Um sorriso grande, de felicidade intensa de quem ouve palavras mágicas ou estrelas.

Encostou o corpo no da outra, firmou o olhar no da outra. Eram da mesma altura. Deliciosamente compatíveis.

- Me leva pra você!

E foram.