
Quando o amor me chamou, segui-o, embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados. E quando ele me envolveu com suas asas, cedi-lhe, embora a espada oculta na sua plumagem possa me ferir. E quando o amor me falou, acreditei nele, embora sua voz possa despedaçar meus sonhos como o vento devasta o jardim. Pois, da mesma forma que o amor me coroa, assim ele me crucifica.
E da mesma forma que contribui para meu crescimento, trabalha para minha poda. E da mesma forma que alcança minha altura e acaricia meus ramos mais tenros que se embalam ao sol, assim também desce até minhas raízes e as sacode no meu apego à terra.
Como feixes de trigo, o amor me aperta junto ao meu coração. Ele me debulha para expor a minha nudez, peneira-me para libertar-me das palhas, mói-me até a extrema brancura e me amassa até que me torne maleável.
Então, o amor me leva ao fogo sagrado e me transforma na ambrosia do banquete divino. Todas essas coisas, o amor opera em mim para que conheça os segredos de meu coração e, com esse conhecimento, converta-me na ambrosia do banquete divino.
Todavia, se em meu temor, procurar somente a paz e o gozo do amor, então seria melhor que cobrisse minha nudez e abandonasse a eira do amor para entrar num mundo sem estações, onde rirei, mas não todos os meus risos, e chorareis, mas não todas as minhas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio e nada recebe senão de si próprio. O amor não possui, nem se deixa possuir. Pois o amor basta-se a si mesmo. E não imagino que possa dirigir o curso do amor, pois o amor, se me achar digna, determinará ele próprio o meu curso. O amor não tem outro desejo senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo, amo e preciso ter desejos, sejam estes os meus desejos:
De me diluir no amor e ser como um riacho que canta sua melodia para a noite;
De conhecer a dor de sentir ternura demasiada;
De ficar ferida pela minha autocompreensão do amor e de sangrar de boa vontade e com alegria;
De acordar na aurora com o coração alado e agradecer por um novo dia de amor, descansar ao meio-dia e meditar sobre o êxtase do amor, voltar para casa à noite com gratidão;
E de adormecer com uma prece no coração para minha amada (DANI) e nos lábios uma canção amor à vida.
•.¸¸.ஐUma paráfrase minha de um texto de Khalil Gibran